Ondas de calor intensificam a poluição do ar e aumentam riscos à saúde, aponta estudo no Texas
As mudanças climáticas estão transformando o perfil das ondas de calor em todo o mundo, tornando-as mais intensas, frequentes e prolongadas. No Texas, essa realidade já se traduz em impactos diretos: apenas em 2023, mais de 300 pessoas morreram em decorrência de temperaturas extremas — o maior número registrado desde o início do monitoramento em 1989. […]

As mudanças climáticas estão transformando o perfil das ondas de calor em todo o mundo, tornando-as mais intensas, frequentes e prolongadas. No Texas, essa realidade já se traduz em impactos diretos: apenas em 2023, mais de 300 pessoas morreram em decorrência de temperaturas extremas — o maior número registrado desde o início do monitoramento em 1989.
Um estudo apresentado na reunião anual da *American Chemical Society (ACS), conduzido por pesquisadores da Texas A\&M University, revelou que as ondas de calor não representam apenas uma ameaça pelo calor em si. Elas também **modificam a química da atmosfera, aumentando a concentração de poluentes nocivos, como o *ozônio troposférico e os compostos orgânicos voláteis (VOCs), que agravam problemas respiratórios e cardiovasculares.
Como o calor altera a qualidade do ar
A pesquisa, liderada por Bianca Pamela Aridjis-Olivos, especialista em química atmosférica, foi realizada durante a onda de calor que atingiu o Texas em agosto e setembro de 2024. As coletas foram feitas em diferentes horários do dia e da noite, na cidade de College Station, com temperaturas variando entre 32 °C e 41 °C.
Um dos diferenciais do estudo foi a exclusão de fumaça de queimadas, que normalmente complica análises de qualidade do ar. Assim, os cientistas puderam observar de forma isolada como o calor extremo influencia os processos químicos atmosféricos.
Utilizando equipamentos de ponta, como o Proton Transfer Reaction Time-of-Flight Mass Spectrometer (PTR-ToF-4000) — uma espécie de “nariz eletrônico” capaz de identificar moléculas no ar com alta precisão —, a equipe detectou um aumento significativo na formação de ozônio, VOCs oxigenados e nanopartículas ácidas durante os dias mais quentes.
Essas substâncias, quando inaladas, estão associadas a doenças respiratórias, inflamações pulmonares e sobrecarga do sistema cardiovascular, agravando a vulnerabilidade de idosos, crianças e pessoas com condições crônicas.
O papel das árvores nas ondas de calor
Um dos achados mais curiosos envolve a emissão natural de compostos por árvores, como o *isopreno, liberado em grandes quantidades por espécies de carvalho. Em condições normais, essas emissões não representam um risco direto. No entanto, sob *radiação solar intensa e na presença de poluentes urbanos — especialmente óxidos de nitrogênio (NOx) —, esses compostos reagem e dão origem a poluentes secundários, como o ozônio e os aerossóis orgânicos secundários (SOAs).
Ou seja, durante uma onda de calor, a própria vegetação pode contribuir, de forma indireta, para a degradação da qualidade do ar, principalmente em áreas urbanas arborizadas que já sofrem com altas emissões veiculares e industriais.
Impactos para a saúde pública
Segundo os pesquisadores, as ondas de calor criam uma “tempestade perfeita”: altas temperaturas, intensa radiação solar e aumento da reatividade química no ar. O resultado é uma elevação nos níveis de poluentes justamente nas horas mais críticas do dia.
Entre as recomendações imediatas para a população durante episódios de calor extremo estão:
- Evitar atividades ao ar livre entre 12h e 16h, quando calor e ozônio atingem os picos;
- Manter janelas fechadas para reduzir a entrada de poluentes em casa;
- Monitorar diariamente o Índice de Qualidade do Ar (IQA);
- Reduzir o esforço físico em áreas próximas a avenidas movimentadas ou centros urbanos durante ondas de calor.
Desafios para o futuro
Os resultados evidenciam um desafio para a gestão da qualidade do ar: reduzir apenas as emissões humanas pode não ser suficiente, já que o aquecimento global intensifica também as emissões naturais e acelera reações químicas que formam poluentes.
Para lidar com esse cenário, será fundamental integrar conhecimentos de química atmosférica, saúde pública e planejamento urbano. Modelos de previsão que considerem tanto as emissões industriais quanto as biogênicas serão ferramentas indispensáveis para antecipar episódios de poluição em ondas de calor e proteger populações vulneráveis.
Conclusão
O estudo da Texas A\&M University destaca que as ondas de calor não são apenas eventos de *estresse térmico, mas também *catalisadores de poluição atmosférica com sérias consequências para a saúde. Em um mundo em aquecimento acelerado, compreender essas interações químicas será crucial para desenvolver estratégias de adaptação e resiliência.
À medida que as cidades se tornam mais quentes, pesquisas como essa oferecem dados essenciais para orientar políticas públicas, melhorar sistemas de alerta e salvar vidas diante da crise climática.
Fonte: https://saudeinevidencia.com.br